domingo, 16 de fevereiro de 2020

O Direito à Cidade e a Exposição à Violência: Questões sobre Itabuna-BA


Maricato (1996), considera que há um profundo descolamento entre a ordem legal e a cidade real. A realidade que respalda esse pensamento são as relações entre as transformações urbanas e o direito à cidade. Caracteriza-se a expansão urbana brasileira a partir do pressuposto de que não há lugar para todo mundo nas cidades, e os pobre são destinados à periferia, onde serviços básicos como energia elétrica, esgoto, pavimentação, água tratada e encanada não chegam.

A autora aborda o paradoxo da metropolização em países que são periféricos no mundo como o Brasil, influenciados pela ideia de cidade liberal, que permite que o mercado imponha sentidos, significados e formas de expansão urbana que propiciam uma segregação e uma profunda desigualdade social, na tentativa de manter os pobres fora das áreas mais urbanizadas.

Nesse contexto conflituoso sobre o desenvolvimento urbano, Barreto et al (2018), aponta análises sobre a espacialização da pobreza, trazendo elementos de análise para além da renda, em bairros de Itabuna-BA. O trabalho também analisa como as pobrezas estão dispersas nos bairros da cidade e quais as suas amplitudes. 

A ideia que se tem ao final é a de defender um planejamento urbano com uma face mais social, o que evitaria formas segregadoras de expansão e manutenção da cidade. 


Fontes:

MARICATO, Ermínia. Metrópole na Periferia do Capitalismo: Ilegalidade, Desigualdade e Violência. São Paulo. 1995

BARRETO, Ricardo Candéa Sá; SANTOS, Eli Izidro do; CARVALHO, Ícaro Célio Santos de. Medindo a Pobreza Multidimensional em Itabuna: Uma Análise Espacial. Em: Bahia. Bahia Análise e Dados: Planejamento e Desenvolvimento. Salvador, v. 28, n. 2, p. 292. 2018.

Novo(s) Nordeste(s)


A obra de Albuquerque Júnior (2011), com primeira publicação feita em 1999, fala sobre a necessidade de descontruir o Nordeste. Nordeste é uma das principais linhas de pesquisa desse autor, reconhecida como uma construção imaginaria e discursiva iniciada no século XX, por intelectuais, artísticas, escritores, tendo como grande mentor, Gilberto de Mello Freyre.

No norte do país, acima da Bahia, o que vai provocar essa ruptura (Norte x Nordeste) é o argumento climático, das secas e – para se contrapor ao processo de industrialização do Brasil e o fim da escravidão – a ideia de que a verdadeira cultura brasileira era a cultura nordestina, agarrando-se a elementos que considerassem os aspectos climáticos da caatinga, do semiárido, legitimando a região e a cultura nordestina como sempre existente no país.

Esse novo regionalismo vai considerar uma nova percepção dos espaços, num contexto onde se quer criar uma “Identidade Nacional”. No Nordeste, ele vislumbra aspectos relacionados à inferioridade, subalternidade, alienação, ruralidade do povo nordestino. O

Nordeste do “Sertão”, também vai ser “Espaço de Saudade” do tradicional, do conservadorismo, do patriarcado, da casa grande. O Nordeste vai andar na contramão da construção da identidade progressista que o país buscava.

A tarefa de considerar esse(s) novo(s) Nordeste(s), na perspectiva de Albuquerque Júnior, onde conhecer é descontruir elementos culturais, consolidados na identidade nordestina, como que enraizados por intelectuais consagrados no Brasil e mundo afora, é de espantar. Tarefa extremamente desafiadora, contudo, necessária.

O Nordeste como está posto na literatura, nas artes, dos discursos e imaginário das pessoas, de fato, não é Nordeste como ele sempre foi, ou como deveria ser.
 

Fonte:
ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz. A Invenção do Nordeste e Outras Artes. 5ª Ed. São Paulo: Cortez, 2011.

O “jeitinho brasileiro” pode ser entendido como um elemento da identidade brasileira?


Pensar os elementos que constituem a identidade de um povo, é pensar em construções históricas, políticas, sociais, econômicas, que ao longo do tempo, fixaram e fixam características que tonam uma sociedade ligeiramente ou profundamente diferente das demais. E falar da identidade brasileira remonta todo um esforço de se consolidar elementos comuns em um país tão diverso culturalmente e com fortes heranças coloniais e sérios conflitos de ordem social e política, na construção de uma imagem do que vem a ser (ou não ser) o Brasil, para os brasileiros e para o resto do mundo.

O “jeitinho brasileiro” se configura um desses elementos que projetam, ou que ajudam a formar, a identidade brasileira. E é o que Da Mata (1997) vai chamar de “Modo de navegação social”. O “jeitinho brasileiro” é o que garante ao individuo a resolução de problemas e conflitos do cotidiano, diante do impasse da lei, da regra, da autoridade, oscilando entre o honesto e o desonesto, abrindo espaço para a corrupção enquanto dá o álibi para que o “cidadão de bem” burle o sistema que o oprime.

Nessa perspectiva a figura do malandro, aquele individuo hábil para enxergar oportunidades e vantagens em todas as situações, torna-se um personagem primordial para representar essa ideia do jeitinho. É como se todo brasileiro, tivesse um “malandro dentro de si” e tivesse que usá-lo em algum momento da vida.

Essa ideia sobre o jeitinho, se casa também, com o que registra Lívia Barbosa (1992), quando propõe falar do “país do jeitinho”, analisando o mapa social que legitima essa prática com domínios, técnicas, idiomas e personagens específicos encontrados nas várias classes sociais, em vários lugares, mas muito próprios do Rio de Janeiro.  


Fonte: 

BARBOSA, Lívia. O Jeitinho Brasileiro: A Arte de Ser Mais Igual do que os Outros. Campos, 2005.

DAMATTA, Roberto. O que faz o Brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1997



ALBUQUERQUE JÚNIOR (2011): Ideias Centrais sobre "A Invenção do Nordeste"



Disponibilizo aqui, um quadro com as ideias centrais da obra "A Invenção do Nordeste e Outras Artes" de Durval Muniz de Albuquerque Júnior. 

Para ter acesso ao documento CLIQUE AQUI

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Vídeos para se pensar o Brasil

Nesse post, eu reúno alguns vídeos encontrados no youtube, no Canal "Casa do Saber", que abordam temas e questões do Brasil, aspectos sociais, violência e corrupção.

Essa foi a primeira proposta de atividade do Componente Curricular "Temas e Questões do Brasil Contemporâneo" e escolho os vídeos da "Casa do Saber" pelos temas levantados, os acadêmicos e estudiosos convidados para discutir ou refletir sobre esses temas e a duração dos vídeos. São vídeos de curta duração e que apenas suscitam discussões que podem ser amadurecidas por quem os assiste.

Abaixo estão os links dos vídeos que selecionados:



Quem discute a temática é Saulo Goulart, doutor e mestre em História pela Unicamp, que traz a necessidade de construção da identidade brasileira a partir da obra "Casa-Grande e Senzala" de Gilberto Freyre (1933).
A obra faz o esforço de entender a formação social e a formação familiar do brasileiro, o que é, como surge e de onde tiramos os elementos principais da nossa identidade.
O negro da senzala e o senhor da casa grande são os dois grandes elos da miscigenação brasileira, "responsável pelo apaziguamento das diferenças étnicas principalmente no período colonial"
Saulo Goulart, fala sobre a importância no livro como chave para o entendimento do Brasil, não como ele retrata a sociedade colonial, mas como suas ideias influenciam e moldam o Brasil até hoje.



Saulo Goulart fala nesse vídeo sobre a obra de Sérgio Buarque de Holanda (1958). Um livro pouco visitado, bastante complexo, com um proposta que busca entender como portugueses e espanhóis reagiram e tentaram buscar o mito do paraíso na Terra, pela exuberância da natureza dos trópicos.
O livro tenta, a partir de formulações de um suposto paraíso na terra, identificar peças fundamentais da mentalidade dessas duas populações ibéricas. 
A ideia central discutida é como brasileiros mantém mentalidades ou formas de pensar do povo que o colonizou. 



Nesse vídeo, Glenda Mezarobba, mestre e doutora em Ciência Política pela USP, consultora do PNUD para a Comissão Nacional da Verdade, abre discussão sobre a violência, refletindo sobre o período da Ditadura Militar no Brasil (1964-1985) associando essa realidade ao processo de escravidão.  Para Mezarobba, "os níveis que temos de violência e de crimes contra a vida, passa pelo legado da escravidão."



Quem reflete sobre esse tema é o Psicólogo e psicanalista Luiz Hanns, ele aponta para questões que colocam o Brasil numa relação da passividade com a corrupção, justamente por ela estar incorporada na vida privada dos seus cidadãos. Hanns trabalha os conceitos de Corrupção Sistêmica e Corrupção Endêmica. 
Sugere uma mobilização que impregne na sociedade de forma que todos se sintam convocados a combater essas corrupções, principalmente a Corrupção Endêmica.
Uma terceira corrupção citada é a Corrupção Sindrômica, que é o espírito de burocratização que sustentamos no país, com leis "incumpríveis". Hanns considera que é necessário corrigir não só a fiscalização mas também a legislação, além da má gestão das instituições do Estado.